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Capítulo 1 - THRAK

Quando eu era pequeno, achava que meu pai exagerava quando dizia que não podíamos confiar nos humanos nem ficar perto deles.


Ele sempre foi o tipo de Lykaris medroso que preferia entregar qualquer um a ter que enfrentar a fúria das pessoas que dividiam a terra conosco.


Nunca lutou em nenhuma guerra.

Nunca tentou melhorar a vida do nosso povo.

Nunca trabalhou para sustentar a própria família.


Era fraco.

Fraco do pior jeito possível: um covarde disposto a vender os seus para continuar respirando.


Eu jurei a mim mesmo não ser como ele no momento em que arranquei sua cabeça, logo após descobrir que havia entregado a localização do nosso vilarejo — onde nossa família se escondia — ao governo humano que pretendia nos escravizar.


Meu pai achou que poderia escapar.

Eu mostrei a ele que o sangue sempre cobra seu preço, principalmente quando nasce de uma traição.


Porém, apesar do meu relacionamento tenso com o meu genitor, não posso deixar de confessar que ele estava certo quando me falou para nunca confiar em um humano.


Eles são traiçoeiros.

Sujos.

Aproveitadores.

Cruéis.

Assassinos sem honra.


É por isso que não consigo descansar, mesmo quando chego em casa depois de um dia exaustivo caçando aqueles que criaram uma droga capaz de esconder ômegas.


Como fechar os olhos sabendo que há mulheres e homens sendo lentamente envenenados?

Como manter a sanidade ao descobrir que um dos supostos ingredientes do tal Mutea só pode ser retirado da espinha vertebral de bebês recém-nascidos, que muito provavelmente não sobrevivem à extração?


E como seguir vivendo normalmente depois de perceber que deixamos os humanos agirem por baixo dos nossos próprios focinhos?


Por ser chefe das operações especiais, estou acostumado a lidar com problemas complexos. Ainda assim, este caso é diferente. Não basta identificar quem criou o Mutea. Preciso entender como foi feito e qual era o objetivo.


E até agora não consegui porra nenhuma!


Solto um suspiro cansado ao deixar as chaves caírem sobre o aparador, depois de trancar a porta, e chuto os sapatos para longe.


Preciso de um banho antes de pegar o computador e voltar a analisar o perfil de todas as pessoas que já cruzaram o caminho de Henry Johnson — o pai da secretária ômega do meu primo e o homem que tem as respostas que procuro incansavelmente.


— Alguém tem que saber onde esse rato se escondeu — rosno, desabotoando a blusa do uniforme, fervendo de indignação por Razor ter permitido que o homem fugisse apenas porque Isabel pediu.


Entendo que ele esteja apaixonado, e não o julgo. O cheiro dos ômegas mexe com qualquer Alfa. Ainda assim, libertar a família da própria mulher foi uma besteira tremenda.


Ele protegeu seu relacionamento, mas permitiu que todos os outros ômegas continuassem em perigo...


Abro o chuveiro e deixo a água gelada cair sobre minha cabeça, alertando meus sentidos e impedindo que o sono se infiltre em meu sistema.


Infelizmente, isso também desperta meu mau humor.


Enquanto esfrego os pelos claros dos braços, sinto a irritação crescer, alimentada por um pensamento que eu não deveria ter, mas tenho: é injusto que Razor esteja aproveitando a noite com a mulher que impediu que eu capturasse Henry.


— Maldito coração mole… — resmungo, mas a frase amarga na minha boca, porque minha raiva vai muito além do trabalho inacabado que Isabel comprometeu ou da falha no sistema que ela escancarou.


É inveja.


Razor está conquistando sua ômega. A levou para jantar, deu flores... Talvez estejam agora deitados de conchinha em uma cama, relaxando após transarem enlouquecidamente.


E eu estou aqui... sozinho. Planejando me cercar de relatórios que já li, enquanto como lasanha congelada e releio documentos que não me darão nada além do que já sei.


Fecho o chuveiro após retirar todo o sabão e estou puxando a toalha para me secar quando o som da campainha ecoa pela cobertura, arrepiando meus pelos.


— Quem caralhos apareceria às três da manhã? — Franzo a testa conforme avanço até o hall de entrada, ignorando o rastro de água que deixo para trás.


Pouquíssimas pessoas podem subir no prédio sem autorização prévia, e receber a visita de qualquer uma delas nesse horário não significa boas notícias.


A porta se abre com um barulho alto, e o humano do outro lado salta ao me ver, o que é um pouco curioso, considerando que foi ele quem tocou a campainha, para início de conversa.


— Quem é você? — pergunto sem rodeios, não reconhecendo o garoto de vinte e poucos anos que usa o uniforme do prédio, mas que com certeza não trabalhava aqui antes, já que nunca o vi.


O rosto cheio de espinhas fica branco quando revelo minhas presas, e ele dá um passo instintivo para trás, quase tropeçando nos próprios pés na pressa de se afastar.


— E-eu sou o n-novo porteiro da noite, s-senhor — responde em meio a gaguejos, apertando algo contra o peito.


Um envelope pardo.


— E o que você quer? — Meu tom sai um pouco menos agressivo, mas continuo desconfiado.


O garoto fede a pânico.

Qual outro motivo teria para isso, se não estivesse fazendo algo errado?


— Isso foi deixado pra você mais cedo, lá na r-recepção — diz baixinho, estendendo o envelope grande com cuidado excessivo, como se tivesse medo de que eu morda seus dedos. — E-eu acabei esquecendo de entregar. Só lembrei agora, quando vi o senhor subir pelo elevador.


— Quem deixou? — questiono, segurando o objeto que parece estar cheio de pequenos papéis em seu interior.


Não consigo espiar o conteúdo, já que está lacrado com cola, mas não me cheira a nada perigoso.


— Não sei, senhor. Quando cheguei para o meu turno, ele já estava sobre a minha mesa. — Ele balança a cabeça, nervoso. — Não tinha identificação. Só dizia que era para entregar ao senhor.


— Hum… — Lanço um último olhar ao porteiro, procurando qualquer traço de mentira. Como não encontro nada, o dispenso com um gesto vago, voltando a atenção ao envelope.


Escuto o garoto praticamente correr para longe enquanto cravo a garra na única borda solta e forço a abertura, revelando algo que jamais imaginei encontrar nesta noite de quarta-feira.


— Que porra de fotos são essas? — sussurro assim que fecho a porta e jogo tudo na mesa da cozinha, que acabou virando uma espécie de quadro de investigação nos últimos oito dias, desde que Razor me entregou o comprimido que sua ômega vomitou.


Meu primeiro contato com o Mutea.


Empurro alguns documentos para o lado — incluindo as cópias transcritas das minhas conversas com traficantes menores da droga e a análise detalhada do Mutea, que praticamente decorei de tanto reler — e abro espaço para as cinco novas imagens, todas retratando o mesmo tipo de ambiente: fábricas e laboratórios abandonados.

Elas estão enumeradas, e, na parte traseira, há coordenadas anotadas com caneta preta, que coincidem com as marcações do grande papel que foi dobrado várias vezes para caber no envelope.


Um mapa-múndi.


— Não pode ser. — Preciso puxar uma cadeira para impedir meu corpo de ir ao chão ao analisar os pontos rabiscados em cada um dos cinco grandes continentes.


Um sistema global.


Coloco as fotos em cima dos números correspondentes, e o nó em meu estômago aumenta conforme entendo o raciocínio por trás dos locais escolhidos.


Primeiro local — Rússia.

Distante. Fria. Ideal para esconder horrores.


Segundo local — Índia.

Gente demais. Caos demais. Pessoas somem fácil.


Terceiro local — República Centro-Africana

Infraestrutura precária. Conflitos constantes. Fiscalização quase inexistente.


Quarto local — Austrália.

Remota. Silenciosa. Longe de olhos curiosos.


Pego a última foto.

Estados Unidos.


Esse é o único local que não tem tanto sentido, mas isso é só até eu perceber algo aterrorizante.


O local é perto.

Menos de vinte quilômetros de onde estou agora.


Bem.

Debaixo.

Dos.

Nossos.

Focinhos.


— E eu nunca notei... — Sem controle nenhum, amasso a quinta foto, indignado por haver a porra de uma fábrica de Mutea basicamente no meu quintal.

Em seguida, me ergo, pronto para revirar todo esse mundo atrás desses malditos laboratórios.


E de quem está criando essa porra de droga.


A sensação de algo grudando na sola molhada do meu pé, no entanto, me impede de dar mais que dois passos para longe.


Ao olhar para baixo, noto outra foto.


Ela deve ter escorregado quando despejei o conteúdo do envelope sobre a mesa.


A pego com cuidado e fico surpreso ao constatar que é diferente das outras imagens, pois não mostra um local abandonado... mostra uma fêmea rechonchuda de cabelos loiros.


Ela é jovem. Talvez uns vinte e cinco anos.


E está acorrentada.


Minha postura imediatamente tensiona ao encarar os pulsos presos acima da cabeça, o metal marcando a pele clara de um modo que tenho certeza de ser doloroso.


O mais curioso é que a mulher encara a câmera sem chorar.


Seu rosto está inexpressivo, como se não tivesse mais forças para reagir.

E isso parte meu coração.


— Quem é você, loirinha? — me questiono enquanto viro a foto, procurando novas coordenadas.


O que encontro é diferente.


ÔMEGA 001 — Rússia EUA.


— Um número. — Uma risada seca sai da minha boca, mas não há humor algum nela. — Esses vermes não a consideram uma pessoa... ela é só a droga de um número.


001.


A primeira.


— Quantas outras será que existem? — A pergunta me escapa, mesmo eu não querendo saber a resposta.


Na verdade, não consigo lidar com a informação neste instante.

Já tenho coisas demais na cabeça para acrescentar mais isso...


Solto um suspiro ao voltar a olhar a palavra riscada.


EUA foi escrito por cima de Rússia com um marcador vermelho, então me parece óbvio que a Ômega 001 está em solo americano agora.


Bem do lado de casa.


— Qual a chance de ela estar nesse galpão? — Pego a quinta foto, do local que fica a vinte quilômetros de onde eu moro, e comparo os fundos, tentando descobrir se parecem o mesmo lugar.


A janela alta e esguia, em arco, com três tábuas de madeira escura pregadas em diagonal, aparece tanto no canto da foto da garota quanto na imagem do galpão vazio, e não deixa nenhuma dúvida.


Vou ter que verificar.

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