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Prólogo - ADVOGADO

Ethan



QUATRO MESES ANTES

 

— Eu sei, eu sei — digo assim que me aproximo da mesa onde meu avô está sentado, erguendo as mãos em um pedido mudo de desculpas pelo atraso. — O trânsito estava impossível!


— Claro que estava. — Gilbert nem levanta o rosto ao responder; seu tom deixa claro que ele não acredita na minha mentira. — Imagino que você esteja cheirando a álcool porque caiu dentro de um tanque de etanol também, correto?


Faço uma careta enquanto puxo a cadeira, dando uma leve fungada para saber se ele está exagerando ou não.


Infelizmente, a resposta é não.


— Bom dia para você também — murmuro ao me sentar e pegar o cardápio, embora saiba exatamente o que tem nele.


Todo segundo sábado do mês é igual: mesma mesa, mesmo horário, mesmo ritual que começou há anos, e nenhum de nós teve coragem de interromper, apesar dela ter ido embora...


Uma garçonete se aproxima assim que levanto a mão, e fico surpreso quando ergo a cabeça e não encontro a velha habitual, que cheira a cigarro barato.

Essa não é só jovem, mas gostosa.


Os cabelos castanho-escuros ultrapassam a cintura estreita, mesmo presos em um rabo de cavalo, e o corpo em formato de violão não consegue ser ocultado nem pelo uniforme preto, simples e largo que veste.


Ora, ora… que baita upgrade este café sofreu...


— Bom dia! Eu me chamo Rosa e vou servi-los hoje. — A voz doce e alegre tem um fundo meio rouco que me deixa duro instantaneamente. — O que vão querer?


Você.


De quatro em uma cama.


— Vocês colocam conhaque no café aqui? — pergunto no lugar, sentindo a cabeça latejar no mesmo ritmo do meu pau desperto.


Ela ergue as sobrancelhas.


— Não, senhor.


O “senhor” vem carregado de julgamento, e eu me pego fissurado pelo modo como me encara sem vacilar e pressiona os lábios carnudos, que estão pintados de um tom escuro de marrom meio rosado.


Será que ela é latina?


Sua fala tem um pouco de sotaque e, apesar de a pele ser clara, há um subtom meio oliva que não costumo ver muito em Los Angeles...


— Então deveriam. Estão perdendo muitos clientes.


Rosa inclina a cabeça, fazendo os fios escuros se moverem, e o brilho que surge em suas íris castanhas — quase da cor de mel — arrepia os pelos do meu braço.


— Acho que o senhor confundiu o endereço... O bar fica na rua de trás.


A fala doce e, ao mesmo tempo, ácida, me deixa em silêncio, sem saber o que fazer.


Não estou acostumado a ser colocado no lugar, muito menos por uma garçonete que tem peitos enormes, lutando contra os botões do uniforme barato que veste.


Por reflexo, meus olhos descem até seu decote, e, quando volto a encarar seu rosto, não há mais nenhum sinal do seu falso sorriso inocente.


Ela está séria.


Furiosa.


Ofendida.


— Então acho que podem ser os ovos bene–


Não consigo terminar o pedido, mesmo falando apressadamente, porque Rosa se vira sem sequer olhar para mim outra vez e sai, acertando a bandeja no meu ombro com força suficiente para me fazer gemer.


É nítido que não foi um acidente...


Meu avô, que até então estava em silêncio, solta um riso baixo, atraindo minha atenção.

— Qual é a piada? — pergunto, irritado, enquanto esfrego o local que dói.


— Sabe... Uma moça assim te faria bem.


— Agressiva?


— Com pulso firme — ele corrige, ainda sorrindo. — Seria uma esposa perfeita. Por que não joga seu charme nela e pega o telefone?


A risada que escapa da minha boca faz Gilbert ficar sério.


— Não estou procurando uma esposa.


— Mas deveria! — rosna, dando um pequeno soco na mesa redonda, o que faz seu café balançar. — Já tem trinta e oito anos, Ethan. Está mais do que na hora de tomar rumo na vida e parar com essas loucuras que você anda fazendo!


— Eu já tenho “rumo”, vovô — lembro, nem um pouco afetado pelo seu chilique. — Sou bilionário. Tenho uma das maiores carteiras imobiliárias de LA, além de uma carreira brilhante... — ergo os dedos, enumerando minhas conquistas. — Fora que, em poucos meses, vou assumir a presidência da maior firma de advocacia criminal do país. Tem como ser mais estabelecido do que isso?


Gilbert me encara por cima da xícara, franzindo as grossas sobrancelhas.


— Primeiro de tudo: não foi você quem conquistou a maior parte do dinheiro que tem. Seus pais deixaram isso pra você, junto com os imóveis — ele joga na minha cara, me fazendo engolir em seco. — E, segundo: de que serve tudo isso, meu filho, se você não tem uma família ao seu lado?


— Mas eu tenho família! Tenho você e Jackson — rebato, ignorando completamente a primeira parte do que ele disse.


— Não é a mesma coisa — ele solta um suspiro, e eu aproveito para erguer a mão e chamar outro atendente, encerrando o assunto que já foi longe até demais.


A mesma garçonete morena olha para mim… e vira o rosto, mas não antes de eu ver seus belos olhos cor de mel revirarem em deboche.


Como se eu fosse um qualquer.


Bufo, cheio de indignação, mesmo quando outro atendente surge logo em seguida para anotar meu pedido de ovos beneditinos e um latte.


Quando ele se afasta, sinto os olhos de Gilbert queimarem a lateral do meu rosto.


— Você foi lá?


Finjo estar ocupado demais, ajustando os talheres, para escutar.


— Faz quatro anos, filho… — Gilbert volta a dizer, insistindo no assunto que quero evitar.


— Eu sei contar! — Meu tom sai mais ríspido do que eu gostaria, mas não peço desculpas.

Escuto-o respirar fundo.


— Ela gostaria da sua visita. Está te esperando...


Meu maxilar se contrai e, embora uma parte do meu cérebro esteja berrando para que eu fique quieto, não consigo me impedir de erguer a cabeça e fuzilar meu avô com o olhar.


— Ela não está mais lá, Gilbert. Não tem nada lá — cuspo, apertando a beirada da mesa com tanta força que sinto a madeira ferir a palma da minha mão. — Só os vermes que comeram a carne apodrecida dela!


Um silêncio pesado cai sobre a mesa, e quase sufoco com o arrependimento quando vejo vovô abaixar o olhar, escondendo as lágrimas que eu fiz surgir.


O pior de tudo é que eu sei que exagerei. Sei que o machuquei. No entanto, é mais fácil ser cruel do que admitir que tenho um buraco no peito que nunca mais se fechará.


Um buraco que vovó deixou quando se foi.


Olho ao redor, na tentativa de conter minhas próprias lágrimas, e encontro a garçonete me encarando de novo. Não com curiosidade, mas reprovação.


Como se eu tivesse falhado em algum teste invisível.


Engulo em seco.


— Lilly não está no cemitério... está no paraíso. — A frase sai antes que eu consiga impedir, e não sei quem fica mais surpreso com ela.


— Desde quando você virou religioso? — Gilbert ergue a sobrancelha, e meu peito aperta ao vê-lo limpar o rastro das lágrimas com a ponta dos dedos.


O advogado criminalista mais temido do país chorando pelo amor da vida dele.


— Não sou e nunca serei — confesso, lançando-lhe um pequeno sorriso de desculpas. — Porém, o que me sobra além de acreditar que ela está dando bronca no próprio Deus para que ele faça as coisas do jeito que ela quer?


O homem de oitenta e dois anos solta um risinho rouco assim que Rosa se aproxima, trazendo meu pedido.


Ela coloca o prato na mesa sem sequer me olhar, mas entrega um lenço de papel para Gilbert com um sorriso doce, o qual o velho retribui, claramente surpreso.


Não nego que também fico.


Quando a morena finalmente me encara, o sorriso morre na mesma hora.


— Você realmente deveria pegar o telefone dela — Gilbert murmura assim que Rosa se afasta, rebolando a bunda grande e carnuda como se estivesse em uma passarela.


— Pegue você. Ela gostou mais do senhor do que de mim... Inclusive, acho que pode ter colocado veneno de rato nos meus ovos! — Indico os pontinhos pretos no prato.


Eu nunca vi esse tempero antes, e eu peço a mesma coisa toda vez que venho aqui!


— Ela parece exatamente o tipo de mulher que tentaria te matar — responde, sem esconder a diversão. — Como eu disse: perfeita para você. Sua avó a amaria!


Fico em silêncio enquanto ele se levanta, não apenas por não saber o que dizer, mas porque a simples menção de vovó faz minha garganta apertar, como se eu fosse sufocar.


Antes de sair, Gilbert faz questão de passar pela morena atrevida e deixar uma gorjeta generosa, que faz seu rosto se encher de surpresa de um jeito quase cômico.


Observo os dois por um segundo e faço uma nota mental simples: nunca mais voltar aqui, para não correr o risco de meu avô bancar o cupido.


Afinal, para que escolher uma mulher, se posso ter várias?

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