Capítulo 1
OLLINA
— O vulcão está prestes a entrar em erupção — a voz desesperada de Gerald, Diretor-Geral do Observatório Vulcanológico de Ignifera, chega abafada pela parede contra a qual pressiono o ouvido, mas ainda clara o bastante para causar-me arrepios na espinha. — Vossa Majestade, precisamos alertar os moradores do norte agora! Já há tremores constantes e liberação de gases tóxicos. Não temos muito tempo antes que o Kahi Akua estoure!
Aguardo, com expectativa, a resposta do meu irmão, o rei de Rubratum, mas tudo que eu e o pobre homem desesperado, outrora mentor da minha mãe, recebemos é silêncio.
Um silêncio tão profundo que chego a pensar que Azerion saiu da sala enquanto o doutor explicava, e eu roía minhas unhas em uma mistura de preocupação e felicidade.
Claro que a explosão do maior vulcão ativo de Ignifera — antigamente conhecida como Ilha do Fogo por ter sido criada, segundo lendas antigas e proibidas, pelo magma endurecido do fogo de dragões — não era motivo de alegria. Muitos perderiam suas casas e, talvez, até suas vidas.
Porém, a catástrofe impediria meu maior pesadelo de acontecer — ou, ao menos, adiaria o casamento por tempo o suficiente para que eu criasse um plano de fuga — e era isso que fazia o canto dos meus lábios ameaçar um sorriso que eu não deveria ter.
— Hum... acho que não.
Por alguns segundos, meu cérebro não processa as palavras ditas por Azerion, de tão absurdas que são.
— P-Perdão? — Gerald pergunta por mim, parecendo tão horrorizado quanto eu estou. — Majestade, acho que o senhor não entendeu quão grave é a situação. Os sensores na base do vulcão detectaram níveis perigosíssimos de dióxido de carbono. Os moradores não vão perceber nada se não avisarmos, já que o gás não tem cheiro, gosto nem é visível! A população do norte vai morrer de hipóxia!
— Eu entendi muito bem, doutor. — Azerion responde, com uma calma tão antinatural que chega a me causar frio. — E continuo dizendo que não daremos aviso nenhum.
Desta vez, meu queixo realmente cai, e me pego questionando, mais uma vez, como é possível que eu divida o mesmo sangue com um homem que só se importa com o brilho da própria coroa.
— Meia dúzia de pobres morrendo intoxicados ou queimados não fará falta ao reino — ele continua, e quase consigo vê-lo com aquela expressão de nojo que sempre surge quando o assunto envolve alguém que não tem dinheiro ou não vive bajulando-o. — O que importa é que Rubratum não pareça vulnerável. Ainda mais agora que Mavortius está prestes a chegar para se casar com a imbecil da Ollina.
Meu peito começa a arder como se a lava de Kahi Akua tivesse caído sobre mim, e não é só por causa do xingamento gratuito. A pequena esperança que eu tinha de que o casamento arranjado pudesse ser evitado se desfaz diante das palavras de Azerion. Tão rápido quanto as vidas ao norte desaparecerão no momento em que o grande vulcão explodir.
— A união do nosso território com o de Pyrantis é muito mais importante do que qualquer explosãozinha — diz o homem de um metro e sessenta, com cabelos castanhos que evitam o topo do crânio e o início das têmporas, com uma tranquilidade que até me faz pensar que ele está falando sobre um vulcão de brinquedo entrando em erupção... e não do maior vulcão do mundo, com mais de duzentos e cinquenta quilômetros de extensão e quase nove mil metros de altura contando da base, embaixo do oceano. — Nada deve tirar o foco dessa junção ou mostrar que não somos poderosos como eu fiz o rei Mavortius acreditar, entendeu?
— M-mas, senhor... — Gerald não termina sua frase gaguejada, e posso apostar que foi meu irmão quem o calou com um gesto de mão.
— Chega desse assunto! — Azerion rosna, comprovando minhas suspeitas. — Não vou arriscar Mavortius cancelar o casamento só porque meia dúzia de ignorantes vai respirar um pouco de gás tóxico! Meu dever é garantir o bem-estar de Rubratum, e isso só será possível quando recebermos o dinheiro que ele pagará pela virgindade de Ollina. — O enjoo que eu sentia piora ao escutar meu nome soar, de novo, pelos lábios venenosos do rei. — Uma centena morrer para que milhões tenham comida e segurança… é mais do que justo.
A bile finalmente vence a batalha, e só tenho tempo de me afastar um pouco da parede onde estava apoiada antes de vomitar sobre meus próprios pés.
O cheiro amargo domina o corredor apertado e sujo da passagem secreta que interliga quase todos os cômodos do palácio, misturando-se ao odor de pedra velha e ar estagnado. A combinação faz meus olhos lacrimejarem, não sei se pelo ardor ácido na garganta ou pela realidade cruel que recai sobre mim.
Meu meio-irmão realmente disse que uma centena de aldeões morrerem, em troca de pilhas de ouro que servirão para enfeitar roupas, é justo.
Que me vender como se eu fosse um móvel, pelo poder que ele quer do velho rei decrépito do reino vizinho, é justo.
Eu nunca achei que Azerion fosse o tipo de homem decente, mesmo quando éramos apenas crianças correndo entre as pernas de papai. Porém, me surpreendeu quão baixo ele, de fato, chega a ser.
Depois que assumiu o trono, meu irmão mais velho se revelou pior do que qualquer monstro das lendas proibidas que eu ouvia enquanto espiava pelos corredores secretos.
Ele não só conseguiu empobrecer nosso reino — que já não era o mais rico de Ignifera — como ainda fez isso por pura arrogância: dando banquetes caríssimos para seus amigos falsos, distribuindo presentes às suas milhares de amantes e financiando obras inúteis que serviam apenas para inflar o próprio ego — como a estátua que fez de si mesmo em ouro puro e diamantes, na base do vulcão que está prestes a explodir.
— E agora ele quer que eu e meu hímen mágico arrumemos toda essa merda... — murmuro, cuspindo mais uma vez para tentar eliminar o gosto nojento da boca, antes de começar a andar pelo labirinto de túneis estreitos.
Meus passos estão trêmulos, e preciso tomar cuidado para não me apoiar em nenhuma parede que possa se abrir e revelar a existência das passagens secretas que minha mãe descobriu muitas décadas atrás, e que utilizou para ir estudar o grande amor da sua vida: Kahi Akua.
Ela tinha uma verdadeira obsessão pelo maior vulcão do mundo, a ponto de todos com quem já conversei mencionarem como Zara parecia irresistivelmente atraída por aquela estrutura geológica.
Foi esse arrebatamento, inclusive, que chamou a atenção do meu pai, o grande rei Nasca, e fez com que os dois se casassem — mesmo ele já tendo uma rainha e um filho: Azerion.
Infelizmente, a mesma paixão que encantou Nasca na minha mãe acabou sendo a responsável por destruir o amor deles, pois, quando o ciúme tomou conta, meu pai proibiu Zara de estudar o vulcão. Trancou-a no quarto e colocou guardas na porta para impedir qualquer tentativa de fuga.
Foi assim que minha mãe descobriu a passagem secreta — a mesma que me mostrou quando eu tinha cinco anos… poucos dias antes de morrer de insuficiência pulmonar, que todos insistem ter sido causada pela inalação de gases vulcânicos.
Eu tenho outra teoria sobre a morte dela, no entanto. Não acho que tenha sido o vulcão que fez minha mãe parar de respirar. Acho que foi a falta dele.
Não sei explicar o motivo, mas há algo que me puxa para aquele lugar perigoso do mesmo jeito que puxava mamãe. É quase como... magia, já que só cheguei perto do Kahi Akua duas vezes, quando acompanhei meu pai em visitas diplomáticas, e isso foi o suficiente para me deixar hipnotizada.
E despertar em meu peito as mesmas dores estranhas que minha mãe dizia sentir...
— Talvez eu devesse logo ceder ao desejo de me jogar em sua cratera e ser consumida pelo fogo — resmungo enquanto empurro a pedra móvel para acessar meu quarto, do qual não tenho permissão de sair.
O bloco desliza, rangendo baixo, e eu entro no cômodo amplo, decorado com tons de rosa-claro e flores que supostamente deveriam ecoar a minha pureza. A virgindade que estão usando como moeda de troca.
— Princesa, você está aí? — a voz de Liana, minha dama de companhia e única amiga, ecoa pelo ambiente no instante em que fecho a passagem secreta, causando-me um mini piripaque que só termina com o resto das minhas forças.
Caio em cima do puff que fica atrás do biombo onde costumo me trocar, e é ali que a mulher de vinte e dois anos, com longos cabelos loiros platinados e olhos de um tom de azul quase tão transparente quanto gelo, me encontra.
— O que está fazendo, Ollina? — Liana inclina a cabeça enquanto ergue a sobrancelha bem delineada, emanando desconfiança. — Não me ouviu te chamando várias vezes na porta?
— Eu… — minha voz sai falha, então dou de ombros, sem ter capacidade de inventar uma mentira. Não quando as palavras de Azerion continuam em minha mente, me atormentando...
Felizmente, devo parecer tão desconjuntada que a desconfiança da loira se transforma em preocupação imediata, e ela nem insiste no assunto ao vir até mim para me ajudar a levantar.
— É a ansiedade para o grande dia? — questiona baixinho, enquanto me coloca sentada na minha cama em formato de castelo, a mesma que tenho desde os três anos e que se recusaram a deixar que eu trocasse por uma normal, por conta dessa ideia ridícula de me manter “inocente”.
— O grande dia maldito, você diz… — bufo, sentindo o enjoo voltar assim que vejo a caixa branco-perolada do vestido de noiva sobre a minha penteadeira.
Deve ter sido isso que Liana foi buscar uma hora atrás, deixando-me sozinha por tempo suficiente para espionar meu irmão.
— Sim... — Liana me olha cheia de dó, e preciso engolir em seco para me impedir de chorar com pena de mim mesma. — O rei pediu para que fizesse a prova final da roupa. Quer garantir que tudo esteja perfeito.
— Claro que ele quer. — Solto um riso tão amargo quanto o vômito de mais cedo. — Sou o grande tesouro de Rubratum: a vaca que lhe dará ouro, diamantes e rubis que nem durarão um ano.
— Não se chame desse jeito! — a dama de companhia repreende, indo pegar o belo vestido que usarei no dia da minha prisão.
Não que eu já não esteja vivendo em uma...
— É melhor falar “a virgem”? — indago, ganhando um novo olhar fulminante da minha melhor amiga.
Liana não me responde, preferindo focar em estender o vestido vermelho perfeito na cama, que tem mangas longas e uma saia tão leve e fluida quanto o fogo que tanto me encanta.
— Acho você muito corajosa... — as palavras são ditas tão baixinho que, por alguns segundos, até acho que são invenção da minha cabeça.
— Não sou corajosa — respondo, vendo que os olhos da minha melhor amiga estão tomados de lágrimas. — Eu só não tenho escolhas. Sou pouco mais do que um fantoche nas mãos do meu irmão.
Um “tesouro” a ser dado para quem ele bem queira.
— Eu sei, mas, ainda assim, você está aqui, lutando. — Ela ergue a cabeça para me encarar. — No seu lugar, acho que eu teria me jogado dentro do vulcão para escapar desse destino horrível... A morte seria mais piedosa do que aquele rei velho, que já teve mais de trinta esposas — Liana mal termina a frase e já leva a mão à boca, os olhos arregalados em puro horror ao se dar conta do que disse. — Q-quer dizer…
Ergo a mão, calando-a antes que tente retirar as palavras verdadeiras.
— Está tudo bem. — Não confesso a ela que esse pensamento não sai da minha cabeça desde que meu irmão me contou seus planos de vender-me a Mavortius.
— Talvez ele m-morra rápido — gagueja, em um esforço vão de me animar. — Aí ele pode ter um filho bonitão e gentil, que vai se apaixonar por você e te tratar como a rainha que é!
— Não sabia que acreditava em contos de fadas, Liana. — Sorrio, mesmo que meu estômago esteja revirado.
— Em um mundo tão cruel com as mulheres, precisamos acreditar, Ollina... — Ela dá um passo para trás, se afastando do vestido que usarei no meu grande fim. — Senão, perderíamos a vontade de viver.
Eu já perdi...
Fico em silêncio enquanto encaro a janela, que dá vista para o vulcão a quase 150 quilômetros de distância. Longe demais para que a lava nos alcance e finalmente encerre meu sofrimento.
A não ser que... eu mesma vá até lá.
E deixe que o Kahi Akua faça por mim o que ninguém mais é capaz de fazer: me libertar.

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