Capítulo 1 - Monstro
ISABEL
Até meus doze anos, meu sonho era ser uma princesa.
Uma princesa daqueles filmes antigos, do tempo em que os humanos ainda fingiam que monstros não existiam e tudo era apenas faz de conta.
Eu sonhava em usar um vestido cheio de babados e encontrar um rei gentil, que diria como eu era a garota mais linda que ele já tinha visto.
Muito mais bonita do que Elizabeth, minha irmã mais velha e a filha preferida dos nossos pais...
Esse rei me daria tudo o que eu quisesse e, principalmente, me enxergaria.
Não me trataria com indiferença, como minha família sempre fez.
Ele me consideraria importante.
Digna.
Mais do que apenas a filha indesejada que não morreu em nenhuma das tentativas de aborto da minha mãe.
Infelizmente, esse rei não existe. E eu já não tenho mais doze anos, nem a capacidade de sonhar com uma vida perfeita que jamais existirá.
Desde que completei dezoito anos e fui mandada embora de casa, tudo o que faço é trabalhar para não morrer de fome. Por isso, também não tenho tempo para alimentar essas esperanças vãs de que minha vida irá melhorar.
Eu não nasci com sorte, como Elizabeth.
Sou, na verdade, uma das humanas mais azaradas de todo o mundo.
Uma ômega.
Alguém que, desde que eles se revelaram, passou a ser marcada como gado e separada para servir de incubadora.
Segundo os Lykaris — monstros que sempre caminharam pela Terra, mas só se revelaram vinte anos atrás, quando governos humanos tentaram escravizá-los e acabaram iniciando uma guerra intensa que minha espécie perdeu —, apenas os ômegas são capazes de aceitar seu DNA mágico, gerando novos monstrinhos para povoar o mundo.
Somos raros e, por isso, também somos separados logo no nascimento, para que os Alfas saibam exatamente onde nos encontrar assim que alcancemos a maturidade sexual e tenhamos nosso primeiro cio.
Eu nunca tive um cio completo...
Desde que me entendo por gente, engulo a pílula amarga que meu pai manda todos os meses, para disfarçar o cheiro característico que atrai os Lykaris e conter as reações vergonhosas do meu corpo.
Esse remédio, denominado Mutea, faz com que eu pareça uma beta comum e me dá liberdade o suficiente para eu continuar aceitando a “boa ação” do meu pai, mesmo depois do modo horrendo como ele me tratou quando eu ainda morava com ele.
Não sou idiota a ponto de achar que ele faz isso pelo meu bem-estar. Sei muito bem que só continua pagando o Mutea devido à grande farsa de Elizabeth, que também toma um remédio — só que para fazer exatamente o oposto do meu: fingir ser uma ômega.
— Deve ser tão divertido não precisar quase morrer de dor todos os meses... — resmungo, enquanto coloco o esfregão dentro do balde com água suja, irritada por minha irmã ter ganhado de mim até nesse ponto.
Ela nunca vai sofrer das cólicas excruciantes. Nunca vai acordar no meio da noite berrando de pura agonia, com o ventre parecendo querer pegar fogo. Não terá as crises de vômito e tontura. Não vai precisar correr para o banheiro e ficar meia hora sentada no vaso, sentindo aquele líquido asqueroso sair de dentro dela.
Elizabeth ficará só com a parte “boa”: o status de ser casada com um poderoso Alfa.
— Está falando com quem, humana? — A voz masculina, rosnada, faz com que meu coração dispare de susto e, quando me viro e encontro um dos grandes guardas Lykaris a centímetros de mim, quase tenho um infarto fulminante.
Presas e pelos.
Isso é tudo que consigo ver em um primeiro momento, enquanto meu cérebro continua berrando por nossas vidas.
O macho à minha frente tem um corpo enorme, com facilmente mais de dois metros de altura, cheio de pelos castanho-escuros de aparência áspera, que dominam cada milímetro de sua pele.
Ele parece um daqueles lobisomens dos filmes de terror antigos — de quando as pessoas nem faziam ideia de que eram reais. Ou talvez soubessem e tenham tentado nos alertar —, com um focinho longo, cheio de dentes afiados, garras enormes e uma sede incontrolável por sangue.
Um verdadeiro monstro, como todos de sua espécie.
— N-ninguém, meu senhor — digo assim que minha língua volta a funcionar, tentando focar nos detalhes prateados de seu uniforme azul-escuro, em vez de em como sua boca parece ter o tamanho exato para arrancar minha jugular com uma única mordida. — Só estava pensando em voz alta. Peço perdão por ter te perturbado. Juro que não acontecerá de novo!
Meu corpo treme de medo conforme o grande Lykaris dá mais um passo à frente, movendo o focinho para cheirar meu corpo e tentar identificar qualquer rastro de mentira.
Prendo a respiração.
Não por achar que ele vá encontrar algo relacionado ao meu péssimo hábito de ecoar pensamentos, mas pela possibilidade de o Mutea falhar e ele sentir meu cheiro verdadeiro.
Por favor, que o remédio continue funcionando.
Por favor, que o remédio continue funcionando.
Por favor, que o remédio continue funcionando.
— Já terminou suas tarefas, faxineira? — o monstro diz ao se afastar, em um tom entediado que me dá vontade de cair de joelhos e agradecer, pois mostra que nada em mim lhe chamou a atenção.
Continuo sendo uma mera beta.
Exatamente o que quero ser...
— Sim, meu senhor. — Abaixo a cabeça, evitando que ele veja as lágrimas de alívio que se acumulam na linha d’água.
— Ótimo. Tenho uma tarefa extra para você. — Ele aponta com o focinho para o corredor à direita, aquele que quase nenhum humano tem permissão para atravessar. — Vá limpar o escritório do secretário. Ele foi demitido hoje, e o local está parecendo um lixão! Não quero que o rei fique irritado com o fedor.
Meu queixo cai, e uma estranha mistura de euforia, medo e curiosidade começa a crescer em meu peito conforme continuo olhando para o local que leva até a sala do rei Lykaris.
Razor.
O monstro mais forte e selvagem do mundo.
O lobisomem que acabou com a arrogância dos humanos, mostrando-nos que não somos nada perante seu poder.
— N-não tenho autorização para fazer tal coisa, senhor — murmuro, sem saber se temo mais a punição que receberei se seguir a ordem do guarda ou o que ele fará comigo agora que não atendi seu comando. — Nem conseguirei entrar na sala, já que é necessário um acesso especial — explico rapidamente, lembrando de tudo que já escutei sobre a sala do rei.
Alguns boatos até dizem que há armadilhas na entrada do escritório, para matar qualquer um que ousar chegar perto!
— Eu estou te dando a autorização, humana. — O tom do guarda não deixa espaços para mais nenhuma contradição, então me limito a segui-lo quando faz um gesto com a mão, antes de ir em direção ao corredor proibido. — Tem tudo que precisa para fazer a limpeza? Não poderá sair para pegar algo e retornar depois, já que vou para outra ala.
— Tenho sim — confirmo, após verificar rapidamente o carrinho que empurro pelo chão da Casa Branca.
Que agora é vermelha.
A cor dos monstros.
A prova inesquecível de que o mundo não é mais dominado pela minha espécie.
— Ótimo. Então limpe esse pandemônio antes que amanheça e o Alfa chegue. — Ele me dá passagem para entrar no cômodo assim que coloca o polegar no sensor e o alarme de segurança para de tocar. — Isso já deveria ter sido feito, mas mudaram de turno e deixaram tudo nas minhas costas.
Espero meus olhos se adaptarem ao ambiente escuro, e, assim que eu clico no interruptor, escuto a porta bater atrás de mim, trancando-me dentro do escritório do rei.
O local mais protegido, e proibido, do mundo.

Omgg, agora to mais ansiosa ainda para o lançamento ♡
Oh my heart minha ansiedade tem ansiedade quero mais