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Capítulo 1 - Sequestrada pelo Alfa


ANA


O som dos sapos coaxando na mata é quase tão alto quanto o zumbido dos mosquitos que insistem em me cercar, enchendo-me de picadas que coçam e me fazem questionar por que diabos aceitei acampar no meio do mato, quando poderia estar em casa, no ar-condicionado, assistindo pela milionésima vez Supernatural — mas só até a quinta temporada, que é a última que presta.


— Por favor, me lembrem de nunca mais aceitar viajar com vocês — resmungo para Mia e Evelyn, que estão do outro lado da fogueira, muito mais próximas do que apenas amigas deveriam estar. — Isso aqui é insalubre! Devia ser crime dormir no meio do mato, junto com os animais.


— Você sabe que, tecnicamente, humanos também são animais, né? — Evelyn ergue a sobrancelha ruiva bem delineada, lançando-me uma olhada rápida antes de voltar sua atenção para Mia, que assopra o marshmallow derretido no fogo. — E alguns têm dentes bem fortes...


— Continue me irritando que vou te dar outra mordida. E, dessa vez, não será para o prazer. — A morena ameaça antes de colocar o doce na boca, sem nem perceber que revelou muito mais do que deveria.


Mordo o lábio para evitar rir quando Evelyn arregala os olhos castanhos em puro horror pelas palavras da namorada, que continua alheia, comendo seus marshmallows tostados.


Mia só percebe o vacilo que deu ao receber um cutucão nas costelas, o que a faz grunhir e se sobressaltar, ficando com as bochechas tão coradas quanto um tomate maduro.


— Q-quero dizer... — a mulher de longos cabelos pretos com reflexos azulados começa a tentar se explicar, mas ergo a mão, mandando-a se calar.


— Relaxem. Eu já sei que vocês duas estão juntas. Não precisam mais mentir para mim. — Abro um pequeno sorriso para as mulheres que estão na minha vida desde o jardim de infância e que já me ajudaram a passar por muitos momentos difíceis. — Só não entendo por que vocês esconderam essa notícia maravilhosa. Acharam que eu ficaria brava?


— Brava, não. Mas... — Evelyn troca um olhar rápido com Mia, e toda a graça que eu sentia desaparece quando finalmente entendo o motivo da ocultação. — A gente só não queria te deixar mal, Ana. Depois de tudo…


— Só porque meu casamento acabou e meu filho morreu, não significa que eu não consiga ficar feliz pelos outros. — Minha voz sai mais áspera do que eu pretendia e, por um instante, até os sons das florestas desaparecem, deixando um silêncio tão tenso que chega a ser sufocante.


Me sinto imediatamente mal por ter destruído o momento agradável que estávamos tendo — como sempre. Então, forço um sorriso, fingindo que está tudo bem.


Fingindo que eu não sou a mulher quebrada que elas sabem que sou.


— É sério. Eu tô muito feliz por vocês. Sempre soube que se gostavam! — conto, empolgada, lembrando-me de todas as vezes em que as vi trocarem olhares longos e ficarem enciumadas quando uma delas começava a namorar.


— Desculpe, Ana. Nós íamos te contar. Viemos até aqui para isso! — Mia diz rapidamente, girando o palito queimado entre os dedos como se sua vida dependesse disso.


— Só que não tínhamos achado o momento certo, já que é uma mudança brusca — Evelyn completa por ela, mordiscando o lábio inferior fino.


— Por que seria uma mudança brusca? Vocês vivem grudadas desde que tínhamos seis anos.


A hesitação delas em me responder faz com que um nó se forme em minha barriga, e eu começo a achar que a mudança a que se referem não tem nada a ver com o novo status do relacionamento...


— Você se lembra que eu tinha tentado uma vaga para o The New York Times? — Mia diz tão baixo que eu mal escuto. — Duas semanas atrás, eles me responderam... e me contrataram.


Meu queixo cai.


— Isso é maravilhoso, Mia! — murmuro assim que consigo fazer meu cérebro voltar a funcionar. — Realmente incrível!


Todo o entusiasmo que começava a crescer em meu peito some num passe de mágica ao notar que Evelyn aperta a mão da morena e respira fundo, como se estivesse buscando forças para dar o resto da notícia.


— Nós vamos juntas. Eu também consegui um emprego lá.


Sinto o chão se abrir sob meus pés quando processo o que Evelyn acabou de dizer.


Não é só a Mia que vai embora. São as duas.


Eu vou ficar completamente sozinha.


— Vocês estão de brincadeira! — exclamo, batendo palmas e abrindo ainda mais meu sorriso, fingindo que não estou prestes a surtar. — É sério isso? As duas vão dominar Nova York juntas? Vocês são praticamente um casal de um filme de romance agora!


As meninas trocam olhares surpresos antes de rirem, meio envergonhadas, meio orgulhosas.


Não deixo de notar como Mia busca traços de desaprovação ou tristeza em minha face, por isso me concentro para não mostrar nada além da mentira que elas merecem receber.


Falei sério quando disse que não estava brava por causa do relacionamento delas. Nem agora, que sei que elas estavam com pena de mim e escondendo essa informação importante. É raiva, o sentimento que me domina.


Sendo bem sincera, não sei se sinto alguma coisa.


Desde que peguei no colo meu bebezinho morto, minha vida tem sido um vazio tão absoluto que, às vezes, nem sei dizer se meu coração ainda bate no peito.


Tem dias em que eu gostaria que ele não estivesse batendo... que tivesse parado no momento em que o do Noah parou, ainda dentro da minha barriga.


Faz dois anos desde que dei à luz meu garotinho, e esse vazio nunca deu sinais de que ia diminuir. Pelo contrário, parece crescer junto comigo. A cada dia, engole uma nova parte de mim, deixando-me dormente de um modo que penso ser irrecuperável.


— Já consigo imaginar: brunch de domingo no Brooklyn, selfie na Times Square, vocês discutindo no metrô porque pegaram a linha errada… — digo sem parar para respirar, garantindo que elas não notem o quão no fundo do poço eu estou. — E eu, claro, tendo hospedagem grátis na cidade que nunca dorme!


As meninas voltam a rir, e o suspiro aliviado que dão faz meu coração doer, pois mostra que elas temiam que eu ficasse mal com a felicidade delas.


Exatamente como estou.


— Faremos questão de arrumar um sofá-cama só pra você! — Mia promete, indo pegar um novo marshmallow para comemorar.


— Pensando bem, não sei se quero me hospedar com vocês. Eu já fiquei traumatizada o suficiente na noite passada ao escutar o que seus dentes fortes fizeram com a Eve — provoco, empurrando para o fundo da cabeça toda a tristeza que nunca me dá trégua.


Finja que está tudo bem, até que passe a ser verdade. Ninguém aguenta mais te ver chorar. Repito na mente, puxando uma respiração profunda para que minhas amigas não desconfiem que eu sou só uma casca sem alma e sem esperança.


Você escutou? — Evelyn grita, tampando o rosto com as mãos enquanto se contorce de vergonha.


— Até um surdo ouviria seus gemidos, querida. Você não foi muito discreta... — bufo, achando graça do quão envergonhadas estão.


— Porra, que um lobo apareça agora e me mate! — A mulher ruiva grunhe, e seu rosto está tão corado que começo a me preocupar com a quantidade de sangue indo para o local.


Só falta eu matar minha melhor amiga também.


— Credo, Eve! Não fala uma coisa dessas. — Mia lhe dá um tapa no braço, indignada. — Você não sabe que as palavras têm poder?


— Não há lobos nessa área. Acho que nem existem mais nos EUA. — Franzo a testa, tentando me lembrar dos milhões de sites que eu li antes de aceitar fazer esta viagem. — Eu jamais teria vindo se tivesse a mínima possibilidade de topar com um lobo!


— Isso é tão triste... Os caçadores mataram todos — Eve murmura, parecendo genuinamente triste. — Não é horrível como tudo que o homem toca ele destrói?


— Antes eles do que nós. — Dou de ombros, nem um pouco afetada por termos vencido a luta da cadeia alimentar.


Um novo silêncio toma conta da clareira, e os olhares julgadores das duas diante da minha insensibilidade me fazem achar que seria uma boa ideia dar uma volta pela floresta, mesmo com a escuridão me impedindo de enxergar mais de dois metros à frente.


— Preciso ir ao banheiro. Tentem ficar com as roupas no corpo, sim? Eu amo vocês duas, mas não quero ver ninguém pelada na minha frente e, muito menos, quero saber quão boa no oral a Mia é — digo enquanto me levanto, precisando desviar rápido do marshmallow pegando fogo que a ruiva joga em minha direção.


— Sua vaca! Isso lá é coisa que se fale? — berra a plenos pulmões, assustando um bando de pássaros que dormia na copa das árvores próximas.


O som abrupto faz meu coração disparar, e quase mudo de ideia quanto a me afastar.


— Grita mais alto. Os ursos ainda não escutaram — rosno, abaixando para não ser atingida por outro doce carbonizado.


— Você falou que não tinha ursos aqui. — Eve franze a testa.


— Não. Eu falei que não tinha lobos. Ursos têm. — Dou de ombros, fingindo que a ideia de topar com um dos animais ferozes não me aterroriza.


Apesar de que é bem melhor topar com um urso na floresta escura do que com um homem... O máximo que um urso faria seria me matar e comer. O homem não seria tão “legal”.


— E para você tudo bem vir para um local com ursos, mas não com lobos? — Mia questiona, soando entre diversão e incredulidade.


— Claro que não está tudo bem. Acontece que eu tenho um plano para lidar com um urso.


— Qual? — As duas perguntam juntas.


— Jogar vocês em cima dele e sair correndo — admito, começando a rir dos rostos indignados. — Ursos caçam sozinhos. Lobos, em bando. Ele vai ficar ocupado devorando o corpo de uma das duas e me dar tempo suficiente para chegar até nosso carro.


— Desgraçada! — Desta vez, Mia consegue me acertar com o marshmallow gosmento, e uma fisgada de desconforto surge em meu pescoço, no local onde fui atingida. — Só porque você planejou nossa morte, espero que você tope com um lobo gigante no meio da floresta. O maior lobo do mundo, do tamanho de um urso!


— Você não acabou de falar que palavras têm poder? — Ergo a sobrancelha, rindo mais forte pelo desejo irreal da minha melhor amiga.


— Pensando melhor, não quero só um lobo: quero um bando inteiro! — Mia se corrige, apontando o dedo em direção ao meu peito. — E que você não consiga escapar dos animais!


— Ou seja, você quer que eu seja caçada por um lobo.


— Por um alfa! — Evelyn diz de repente, entrando na conversa maluca.


— Alfa? — Até Mia fica surpresa.


— Eles são mais ferozes. — A morena afirma como se tivesse conhecimento de causa.


— Se for um alfa tipo o Derek Hale, eu aceito... Moreno gostoso — digo para provocá-las. — É bem meu tipo.


— Que ele seja igual o Peter! — Eve, que maratonou comigo todas as temporadas de Teen Wolf, me corrige.


— Mais velho e com um humor duvidoso? — Dou de ombros, lembrando da aparência do loiro. — Por mim, tudo bem.


— Você não tem salvação. — Mia não sabe se ri ou chora.


— Eu sei — decido rir, mesmo que suas palavras sejam mais verdadeiras do que eu gostaria. — Deixa eu ir lá antes que eu faça xixi nas calças.


— Por que não usa o balde? — Mia pergunta assim que começo a me afastar.


Uma série de calafrios percorre minha espinha ao ser lembrada da existência de tal objeto repugnante, onde venho tendo que fazer minhas necessárias há dois dias, já que não há um banheiro decente no meio do nada.


— Eu prefiro correr o risco de ser devorada pelo lobo.


— Cuidado. A gente estava brincando, mas é verdade. Quando ficamos falando essas coisas, a gente atrai. — Mia repete a mesma ladainha de antes, desta vez sem nenhum traço de divertimento na voz. — Não quero que nada disso aconteça com você.


— Destino, ignore ela e me mande o lobisomem moreno gostoso com humor duvidoso. Que ele me sequestre desta mata maldita e me bote amarrada em uma cama fofa com ar-condicionado! — zombo enquanto avanço em direção às árvores escuras, fingindo falar com as estrelas.


Escuto os xingamentos e as risadas das minhas melhores amigas, mas não me viro para encará-las. Continuo andando até que todo o ruído do fogo estalando seja substituído pelo silêncio assustador da floresta, o que me faz notar como meu coração está acelerado.


Tropeço em algumas pedras pelo caminho, e cada estalo de galho quebrando sob o meu Adidas branco — que foi uma péssima escolha para fazer trilha, inclusive — me faz tomar mais ciência de quão burra eu fui por não ter escolhido o balde.


— Que meu alfa não me veja fazendo xixi. Isso seria esquisito. — A risada que sai da minha boca é de puro nervosismo e parece ecoar na escuridão sufocante, chamando muito mais atenção do que deveria.


Antes que eu possa tomar vergonha na cara e voltar para o acampamento — enfrentar o balde nojento e as mulheres que estão prestes a irem embora e viverem suas vidas sem mim —, meu pé pisa em falso, e todo meu corpo se inclina para frente, indo em direção a um chão que não parece existir.


Não tenho tempo de gritar ou tentar me segurar em algum lugar. O mundo vira de cabeça para baixo quando meu corpo despenca pela ribanceira, causando-me tanta dor que nem consigo processar direito os galhos e as pedras rasgando minha pele conforme rolo sem controle montanha abaixo.


O ar desaparece dos meus pulmões, e uma agonia profunda domina minha cabeça quando finalmente paro à beira de um riacho de águas escuras, onde é possível ver o reflexo da lua cheia que brilha no céu.


Pisco várias vezes na tentativa de clarear a visão turva, mas tudo o que consigo é aumentar a ânsia de vomitar. Fecho os olhos e me esforço para respirar fundo, mesmo que a ardência no peito seja tão forte que parece que deixei meus pulmões em algum lugar no meio da ribanceira.


Estou viva.


Não sei como, mas estou.


O fato não me acalma em nada, ainda mais que eu consigo sentir o cheiro metálico do meu sangue no ar. E se eu estou sentindo, os animais ao redor também devem conseguir sentir.


Penso em me levantar, mas todo meu corpo dói só de imaginar fazer tal coisa. Então tento catalogar os lugares feridos, para entender qual a extensão total dos danos que sofri.

Será que eu quebrei algo?


Cada parte de mim parece em chamas, e a simples ideia de mover um dedo me faz querer chorar.


Como vou sair daqui? Como vou voltar para Evelyn e Mia?


Minha nuca se arrepia de repente, mas não tem nada a ver com a falta de respostas para todas as questões que surgiram em minha mente nos últimos segundos. Não. O motivo dos meus calafrios é a sensação intensa de estar sendo observada.


Mas... por quem?


Forço minhas pálpebras a se erguerem, juntando cada grama de coragem e força que ainda me resta. E o pouco fôlego que havia conseguido recuperar desaparece mais uma vez quando meus olhos se cruzam com os do ser que me observa do outro lado do riacho.


Dois metros.


Apenas dois metros me separam do maior lobo que já vi na vida.


Um lobo do tamanho de um urso.


 

 
 
 

2 comentários


Convidado:
15 de nov. de 2025

Que horas vai lançar mulher? Tô ansiosa

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Convidado:
15 de nov. de 2025

Pqp, estou agora mais ansiosa para comprar e ler está maravilha 😸 😞

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