Epílogo Monstro
ISABEL
UM ANO DEPOIS
O quarto está escuro, o que me torna mais consciente do que o normal da respiração do pequeno serzinho deitado ao meu lado.
Ele dorme atravessado entre os travesseiros, com uma das mãozinhas fechada em punho, ainda sem garras, e a outra agarrada à minha camisa, impedindo-me de me afastar. O focinho franzido denuncia o sonho profundo, e os pelos acobreados, uma mistura perfeita do meu tom com o de Razor, estão completamente bagunçados, mesmo que ele não tenha colocado nenhuma roupa hoje.
Nosso monstrinho perfeito só suporta a fralda que tem um buraco para o rabinho.
E ainda depende do dia...
É estranho pensar que já faz um ano desde o dia em que achei que ia morrer no escritório do meu chefe — agora marido.
Um ano desde que descobri que estava grávida.
Que tive o cio mais rápido do universo.
Um ano desde que tudo mudou.
Ezra solta um resmungo ao meu lado, e seu corpo se aproxima mais de mim, parecendo sentir que são seus últimos momentos na cama dos pais.
Não há rangidos nem passos, mas sei que Razor entrou no quarto, pois meu corpo já se especializou em reconhecer sua presença. Por isso, não me surpreendo quando o calor de seu corpo grande domina minhas costas, um segundo antes de a palma da mão enorme — que agora carrega uma belíssima aliança dourada — se acomodar em meus quadris com gentileza, mas também com posse.
— Ele já dormiu, amor — ronrona suavemente, esfregando o focinho contra meus cabelos, em seu carinho típico.
— Não pode ficar aqui mais um pouquinho? — questiono, mesmo sabendo que é em vão.
Essa é uma das pouquíssimas coisas que Razor não permite. Desde que Ezra nasceu, ele dorme no berço, colocado no canto do quarto para me tranquilizar.
— Criança é no berço. Papais são na cama — meu marido repete sua frase de sempre, fazendo-me revirar os olhos. — É assim que criamos Lykaris fortes e com honra.
— Com certeza criamos ele com muita honra — bufo, incapaz de conter o sorriso toda vez que Razor usa essa palavra, já que agora sei que é o que ele tatuou no pau, na língua original dos Lykaris, depois de uma noite de bebedeira com Throk.
— Pare de ser uma pirralha. — Razor deixa uma mordidinha brincalhona na minha nuca e se ergue, estendendo as mãos para pegar nosso filhote.
Ezra enfia o focinho inteiro dentro da minha camisola vermelha, soltando um choramingo de partir o coração.
— Só mais um pouquinho? — peço de novo, passando os dedos pela coluna delicada do filhote, acalmando-o.
— Amor, ele vai estar bem ali. — O Alfa aponta para o móvel a pouco menos de cinco metros de onde estamos, mas ainda me parece uma distância longe demais.
Meu marido desiste após uma luta árdua de olhares que eu venço. Como sempre.
Ele suspira.
— Só mais cinco minutos! — resmunga como se fosse um grande sacrifício, voltando a se deitar atrás de mim, em nossa conchinha perfeita.
Não me aborreço com seu tom. Sei que ama Ezra mais do que tudo no mundo e que é um ótimo pai. Apenas foi criado sob regras bem diferentes e quer segui-las, acreditando que isso fará a diferença no homem que nosso monstrinho se tornará.
Seu braço passa por cima da minha cintura, e a mão larga e calejada cobre a minha, envolvendo também o corpinho pequeno do nosso filho.
O toque é cuidadoso. Quase reverente.
Ezra relaxa imediatamente, e eu juro que vejo o vislumbre de um sorriso em seu focinho sem dentes.
Como a vida é incrível...
Fecho os olhos por um instante, apenas absorvendo o calor do meu filho e do meu marido, que me cercam de todos os lados, assim como as respirações profundas que acalmam minha alma como nada mais poderia.
É difícil acreditar que, justamente no Alfa que sempre temi que me escravizasse, encontrei minha liberdade.
E, apesar de todos os problemas que ainda temos a resolver, também encontrei meu final feliz...
Fim.

Comentários